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O Agente Secreto

Kleber Mendonça Filho

2025

O Agente Secreto

Essa review contém spoilers.

O Agente Secreto é uma aula de cinema.

Antes de mais nada, é importante ressaltar que assisti ao filme sem qualquer contexto ou conhecimento prévio sobre a trama, o cenário, os atores ou qualquer outro aspecto da obra. Recomendo que todas as pessoas o experienciem da mesma maneira. Portanto, se você ainda não assistiu, visite o cinema mais próximo assim que possível e só depois retorne a esse texto.

O Agente Secreto é uma apresentação do que o cinema deveria ser. Rico tematicamente, o roteiro percorre múltiplas linhas narrativas com propósito. Apesar de algumas pessoas terem dificuldade de entender o motivo de algumas cenas estarem presentes na montagem, não consigo apontar uma única tomada que não tenha motivo para existir. Essa maestria na condução dos personagens fica ainda mais evidente nas tramas que se desenvolvem paralelamente ao protagonista. A trama que melhor representa esse conceito é a Perna Cabeluda.

A primeira vez que vemos a perna ela está dentro da barriga de um tubarão, uma cena que brinca com a expectativa do público através da exposição do grotesco – na cena anterior, o cadáver de um assaltante está apodrecendo em um posto de gasolina, porém está coberto e pouco é visível, não dando indícios que o filme será tão explícito como se mostra mais tarde.

Esse primeiro vislumbre da perna cumpre diversos propósitos narrativos: apresentar o tom do delegado e sua gangue, a relação que o governo mantinha com as universidades, o modo como o governo militar operava durante a ditadura.

E não só de propósitos narrativos vive o roteiro. O contexto que essa cena apresenta passa por diversos níveis dependendo do repertório cultural de quem está assistindo. Para um gringo, a ambientação e a reação dos personagens frente ao ocorrido fala muito sobre o tom geral do período histórico no qual o filme se passa. Para alguém que pouco conhece sobre Pernambuco, é uma referência ao mar do estado que apresenta risco de ataque de tubarão. Mas para quem conhece o folclore de Recife, ali já se forma a expectativa de ver em tela minha lenda brasileira favorita.

A partir daí se desenvolve a trama da perna, mostrando a inescrupulosidade do delegado Euclides, bem como o poder que a polícia corrupta tinha no período militar, tudo isso para culminar na cena Thriller da Perna Cabeluda no parque. Esse momento do filme sintetiza o que o cinema deveria ser. Lúdico, sem medo de ser autoconsciente, surpreendente.

Uma cena que parodia os slashers só funciona tão bem dentro de um suspense neo-noir porque está tematicamente amarrada ao restante do filme, sobretudo ao seu tema central: a memória. A narrativa é construída a partir das lembranças que sobreviveram aos anos da ditadura, e o ataque da Perna Cabeluda surge como a memória coletiva que o povo recifense preserva e mantém viva por meio do folclore.

Esse tema só se torna evidente no primeiro interlúdio, que representa outra grande quebra de expectativa do filme. Quando o tempo narrativo se desloca para o presente, fica claro que estamos observando a história a partir de registros históricos.

Esse é, para mim, o maior trunfo do filme. A narrativa não linear bem como as viagens de tempo narrativo foram usadas pelo roteiro com propósito, diferente de outras obras que tentam embaralhar suas próprias linhas do tempo para parecerem mais complexas do que realmente são. Em O Agente Secreto essa é uma ferramenta para nos emergir no filme e nos fazer refletir sobre a natureza das memórias – aquelas que não são preservadas acabam se perdendo.

O roteiro faz questão de deixar isso claro tanto de maneira direta, com Armando não conseguindo encontrar o registro de sua mãe, quanto de maneira indireta, com Fernando não se lembrando mais de seu pai no tempo presente. Além disso, só somos capazes de observar as histórias que foram preservadas, por isso não vemos o assassinato de Fernando e o que aconteceu com os demais personagens após seu assassinato.

Esse fim abrupto é provavelmente a parte mais controversa do filme. Muitas pessoas não gostam do final por deixar tantas pontas soltas, mas é justamente essa a beleza do filme. Mais uma vez eu repito: isso só é possível graças ao roteiro tematicamente coerente do começo ao fim, mesmo que não seja percebível o tempo todo.

Quando o delegado Euclides pede para ver as cicatrizes do judeu Hans, o texto fala sobre como o medo é capaz de subjulgar nossas dores para preservar nossa existência. As memórias do holocausto do ponto de vista de um judeu precisam ser suprimidas para dar espaço a um teatro de soldado alemão, para garantir a proteção necessária à manutenção de sua condição de refugiado.

Quando Fernando faz uma carta para seu pai dizendo que está conseguindo começar a esquecer de sua mãe, o texto fala sobre como uma memória de um ente querido pode ser forte, nos dar a força de vontade para continuar seguindo em frente, assim como pode ser efêmera, e se esvair com o passar dos anos caso não sejamos capazes de manter essas memórias conosco.

É claro que não se pode ignorar as diversas outras temáticas abordadas pelo filme, em especial as críticas diretas ao regime militar da época: a corrupção policial, os ataques às universidades públicas, o enriquecimento ilícito do setor privado por meio da máquina estatal e as práticas de tortura e assassinato promovidas pelo governo. Ainda assim, mesmo diante de temas tão densos e graves, o filme encontra espaço para retratar o carnaval do Recife e prestar uma grande homenagem ao cinema.

Há quem diga que O Agente Secreto é o melhor filme do ano. Há quem o considere um dos melhores da década. Concordando ou não com essas afirmações, é inegável que se trata de uma obra provocativa e singular. Muito poderia ser dito sobre atuação, design de produção, edição e outros aspectos técnicos, mas isso deixo para quem realmente entende disso. Para mim, O Agente Secreto é um filme que me encantou do início ao fim, tanto pela atenção aos detalhes quanto pelo respeito ao cinema brasileiro.

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