Nostalgia é o pior sentimento
Uma reflexão sobre a diferença entre saudade e nostalgia.
Alguns amigos meus têm chegado à marca dos trinta anos recentemente, e em todos esses casos a terceira década de vida veio com um profundo sentimento de nostalgia. Pessoas que se formaram na faculdade, trabalham e construíram família se afogam nas memórias do passado se apegando a uma realidade que já não existe mais há dez, quinze anos.
É claro que meu texto poderia percorrer o caminho da nostalgia comercial: filmes e séries que revisitam obras das décadas de 80, 90 e até começo dos anos 2000 seguem em alta. Mas eu quero versar sobre outro assunto.
A nostalgia é um dos piores sentimentos que o ser humano pode sentir. É claro que chamar de pior sentimento é um pouco de exagero, desculpe pelo título. É um pouco difícil de argumentar de maneira puramente semântica e etimológica, mas eu pessoalmente gosto de separar esse desejo de revisitar o passado em saudade e nostalgia.
A saudade é um sentimento bom, que nos faz querer revisitar os lugares e as pessoas de que sentimos falta. A saudade nos motiva, não nos deixa esquecer dos momentos bons e também causa dor e sofrimento quando sabemos que existem coisas que se foram — e isso é bom, pois também nos conforta e nos ajuda a passar pelo luto. O lugar das memórias é no passado.
Já a nostalgia é um sentimento que nos agride. A nostalgia não é puramente uma saudade melancólica; é um desejo de que o passado volte a existir. É um descontentamento com o tempo presente que faz o sujeito buscar um ideal inexistente, pois o passado não é essa falsa ideação que frequentemente ocorre quando nos afogamos na nostalgia. O passado está cheio de falhas e sofrimento, assim como o agora e assim como o futuro será.
Prender-se na armadilha da nostalgia prejudica nossa visão do presente. Tudo deixa de ser bom o suficiente, os momentos deixam de ser especiais, pois não são iguais àqueles vividos em outro tempo. De repente o único argumento que sobra em qualquer discussão é “no meu tempo era melhor”. Não, não era. Era bom, mas era ruim também. Igual agora. O problema não é sentir nostalgia, é viver nostalgicamente.
E é claro que existiam coisas que eram melhores. Existiam coisas que eram piores, bem piores. Mas essa discussão não tem a menor importância uma vez que o passado não pode afetar diretamente a maneira como experienciamos a vida. Retornar às memórias e se deixar influenciar é uma decisão puramente pessoal.
Deixe a saudade te fazer sentir. Seja o que for bom, seja o que for ruim. Mas deixe ela te motivar para melhor. A nostalgia não tem nada para agregar a não ser meia dúzia de filmes e jogos que vão reconfortar uma coceira que não podemos coçar.
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